Cerca de 60% dos municípios potiguares decretaram estado de emergência nas áreas rurais pela falta de água potável. São 101 municípios dos 167 que existem no Rio Grande do Norte à espera de ajuda do governo federal.
A descrição acima, publicada no Jornal Diário de Natal, edição de 12 de março de 2006 , retrata uma situação que poderia estar encaixada na maior parte da história de vida do povo do nosso Estado. A cada período mais prolongado de seca, existe um quadro que caracteriza a região nordeste: a perda de rebanhos, de colheita, de renda familiar e também de vidas. Diante do fato, o governo investe dinheiro na contratação de carros pipa, cestas básicas e outras medidas para não permitir que o homem do campo abandone suas terras e consiga sobreviver.
A seca tem consumido ao longo dos anos boa parte dos recursos, já escassos, do tesouro. Somente na última década o governo federal em parceria com o Estado, aplicou no programa de recursos hídricos R$ 500 milhões, na construção da infra-estrutura que permitiu a integração de bacias, entre outras ações.. As medidas dotaram o Rio Grande do Norte de condições para receber as águas do Rio São Francisco.
Quando se discute a necessidade ou não do Projeto de Integração do Rio São Francisco com o Nordeste Setentrional- para o povo do Rio Grande do Norte, não há dúvidas: O Estado precisa e quer as águas do São Francisco. Razões para isso não lhe faltam. Além da indiscutível questão da sobrevivência, o Rio Grande do Norte precisa garantir às populações do semi-árido a água que corre nas quatro adutoras, através da Barragem Armando Ribeiro Gonçalves, para 24 cidades, incluindo Mossoró, a segunda maior cidade do estado, e mais de 150 comunidades rurais.
Em terras potiguares as águas do São Francisco vão desaguar através de dois eixos: na bacia do Rio Piranhas/Açu, região do Seridó (sem nenhuma segurança hídrica hoje), e na bacia do rio Apodi/Mossoró, na chamada tromba do elefante. Serão 1 milhão e 23 mil de pessoas beneficiadas, nos 94 municípios dessas bacias.
A limitação da disponibilidade hídrica ainda vem sendo um entrave para o desenvolvimento do Rio Grande do Norte. A Transposição será de fundamental importância para conter o déficit hídrico provocado pelo crescimento populacional e pelo desenvolvimento da região com a presença de empresas como a Petrobrás, TERMOAÇU, DEL Monte e tantas outras que trazem milhares de empregos e geração de renda no interior do Estado.
É verdade que o RN quer com as águas do São Francisco criar condições de sinergia hídrica (poder utilizar as águas que hoje ficam armazenadas esperando a seca), também na Barragem Santa Cruz do Apodi, onde está projetada a adutora do Alto Oeste para abastecer 23 cidades e outra tantas comunidades rurais. O sistema vai atender 77.126 habitantes e possibilitar a retomada do processo de desenvolvimento econômico na região.
Na Chapada do Apodi área compreendida entre o Rio Grande do Norte e o Ceará existem cerca de 300 mil hectares de terras agricultáveis, que não são aproveitadas em função da falta de garantia de água. O Rio Grande do Norte é o principal produtor nacional de melão, mas não tem rios perenes. O potencial não é totalmente aproveitado, pois depende da irrigação, que por sua vez depende de água que fica estocada no Açude Santa Cruz do Apodi para garantir o suprimento das populações numa provável seca.
O uso intenso das águas subterrâneas no pólo de fruticultura irrigada Mossoró-Baraúna, segundo centro exportador de frutas do Nordeste, fez alguns poços secarem na última estiagem, em 2003. A retirada de água foi maior do que a recarga. Todo este pólo usa a água do subsolo para o cultivo agrícola. São 250 milhões de reais por ano ameaçados pela falta de água. Desde os anos 80, os poços subterrâneos da região são usados para a agricultura irrigada. Com a água da Transposição garantindo a sustentabilidade do açude Santa Cruz, poderiam ser irrigados 28 mil hectares na Chapada do Apodi..
No Vale do Açu, outros 20 mil hectares não são aproveitados pela mesma razão: as águas ficam estocadas no açude Armando Ribeiro Gonçalves, que tem capacidade para armazenar 2,4 bilhões de metros cúbicos de água. Na criação de camarões, acontece o mesmo. Os produtos da área da foz do Rio Piranhas demandam cerca de seis metros cúbicos de água por segundo ( m³/s), mas a vazão disponível do rio naquelas localidades é de apenas quatro m³/s. Os estudos demonstram que somente a bacia do Piranhas/Açu terá em 2015 um déficit total de 26,9 m³/s, que só pode ser compensado pela importação de água de outras bacias.
Temos que criar condições de desenvolvimento para o interior do Estado e sem a garantia de água fica impossível. Com a chegada da água em áreas que hoje não contam com nenhuma fonte segura de abastecimento, a perspectiva é que novas fronteiras de desenvolvimento surjam no Rio Grande do Norte.
O Governo está apostando nessas águas.