Agonizando, sob o olhar indiferente da metrópole, corre o pequeno Pitimbu, indo derramar as suas lágrimas na Lagoa do Jiqui.
Ninguém ouve os seus gemidos, porque ele escorre silencioso por entre as dunas. Ninguém repara na sua cara suja, no seu corpo coberto de chagas, porque já virou rotina para os citadinos vê-lo carregando as nossas sujeiras. Assistimos indiferentes, como que anestesiados pela febre da alienação, a morte de mais um rio.
Este, muito especial, ligado a nós como estão ligados dois irmãos de carne, por ser ele quem nos dá de beber (o pequeno Pitimbu derrama as suas águas na Lagoa do Jiqui e da lagoa é retirada aproximadamente 30% da água potável que abastece a zona sul de Natal). Mas, como dizíamos indignados, esse singelo rio está morrendo.
Suas margens estão sendo ocupadas de forma desordenada; os loteamentos situados nas suas imediações, devidamente "aprovados" pelos órgãos responsáveis, estão destruindo o restante da vegetação responsável pela retenção das areias das dunas, agravando com isso o processo de assoreamento do rio. E o leito do pequeno Pitimbu, a cada dia que passa, está sendo preenchido por areia e argila, receita precisa para quem deseja matar um rio.
Calados estamos e calados ficamos, diante de mais uma tragédia ambiental, neste país que tem o verde na sua bandeira. Teríamos a quem recorrer? Se formos procurar nas leis municipais e estaduais algum suporte, encontraremos respostas concretas sobre este problema. A legislação existente contempla explicitamente o tema "preservação dos nossos rios e lagoas".
Então, por que ninguém toma as devidas providências para evitar a morte desse que é um dos maiores patrimônios da cidade do Natal? Deixo essa questão no ar, para que reflitamos um pouco sobre o verdadeiro significado da palavra cidadania. Ainda há tempo. O nosso Pitimbu ainda pode ser salvo. Será que não vale a pena lutar por isso?